23 de junho de 2009

CELEBRO FEITO CRIANÇA, COMO NUNCA!

No ano de 1952 Salvador, o meu pai, falecido em 2001, converte-se ao protestantismo histórico e deixa o catolicismo para ingressar na Igreja Presbiteriana Independente (IPI). Ainda nos anos cinqüenta, prestes a iniciar estudos teológicos no Seminário Presbiteriano do Sul, deixa a IPI e migra para a Assembléia de Deus, contagiado pelo fervor dos pentecostais. Sempre digo que meu pai nunca deixou de ser presbiteriano; apenas agregou alguns elementos fundantes da teologia pentecostal e mudou de denominação para, livre de hostilizações, prosseguir a caminhada. Isso fez dele um inveterado descontente com as mazelas e meninices do meio assembleiano, no qual permaneceu por mais de 40 anos, até a morte. Já nos anos finais da vida, revelou-me, mostrando-se decepcionado com a ética assembleiana, a saudade da sua origem evangélica e certo desejo de retornar ao presbiterianismo.

Eu, entretanto, nasci e cresci sob a égide da conversão do meu pai. Não me ocorreu a metamorfose da personalidade como a que acontecera com ele. Cuidado e doutrinado para o não envolvimento com o “mundo”, existi sempre na condição de “filho de lar evangélico”. Na segunda metade dos anos setenta, sem a experimentação de uma transformação radical que caracterizasse claramente o eu que entendia ser “novo nascimento”, fiz a “profissão de fé” e fui batizado por imersão. Lembro-me ainda da data memorável na vida do pentecostal; o dia do “batismo com o Espírito Santo", evidenciado com o falar em língua estranha. No dia 11 de dezembro de 1983, um domingo, no culto da tarde, enquanto o pregador solenemente lia no capítulo 17 do evangelho de João, verso 17, “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”, eu falei a tão desejada língua estranha. Celebrei feito criança, como nunca.

Contudo, veladamente sempre padeci pelo fato de não poder referenciar a minha conversão, enquanto processo de reorganização da minha personalidade, semelhante ao que aconteceu, por exemplo, com o apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona e o indiano Sadhu Sundar Singh. Devida a condição de “criado no evangelho”, nunca consegui dividir minha vida em termos de antes e depois da conversão, não fui envolvido pelo êxtase emocional dos que são alçados a um modelo de significação que desestrutura para reorganizar a vida. Por vezes, me senti diminuído ante os testemunhos de crentes que experimentaram pregressa vida na devassidão, mudada no ato da conversão. Por tradição, existi na “religião de segunda mão”, legado do meu pai.
Com o passar dos anos, descubro que, em meio a essa latente falta de referência, se aprofunda uma crise com relação àquele modelo de significação herdado por osmose. Ocorre uma ansiedade por algo que não pode ser satisfeito pelas articulações da espiritualidade a mim imposta que, constatei, privilegiava o instituto do dogma e da culpa, legitimadores do medo. Descubro-me imerso nos ensinamentos de Jesus sem antes ter vivido a emoção primeira de saber quem foi Jesus. Cuido que por essa causa, há muito, vinha percebendo a necessidade de estabelecer uma nova comunicação com o meu Deus.
Nos últimos tempos, experimentei uma nova leitura da Bíblia. Embora, para mim, ainda desprovida de profunda elaboração lógica e metafísica, essa nova leitura do texto sagrado alvora alguns lampejos que clareiam-me o espírito. Contemplo o Deus das Escrituras primordialmente amoroso, que propõe uma visão restauradora do mundo, que privilegia a vida e promulga o Reino aqui, e a partir do agora. Descubro que a revelação de Deus, bem como a revelação da própria humanidade, é um processo contínuo, que não pode cristalizar-se na religião estática, a dos dogmas definitivos.
Excitado pela descoberta, dou conta de que, nesse desenvolvimento espiritual, sem surto dramático, sem ruptura explosiva, os postulados da minha fé pueril estão em estado de resignificação; da degradada religião do medo, transmuto-me para o Evangelho da Graça que “ele [Deus] nos concedeu gratuitamente no Amado”.
Nessa irrupção aparentemente serena, diante do misterioso e do maravilhoso, entrei em êxtase. Não consigo explicar o que está acontecendo comigo, mas estou convicto de que me converti.
Vivo um novo Pentecostes. Como evidência, passo a falar nova língua; a língua do amor de Deus, estranha a alguns (até próximos), mas perfeitamente compreensível a outros (até mais distantes), na sua própria língua. Celebro feito criança, como nunca!

Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas”.
(2 Coríntios 5:17, NVI)

7 comentários:

Anônimo disse...

Jesus quer te salvar meu querido, não esquece que às vezes procuramos desculpas para nossos pecados e tentamos nos esconder atrás de afirmações que saem da mente perversa do homem, mas Deus te ama e tudo que você sabe não é nada sem Jesus na sua vida! Um abraço.

Tales Paranahiba disse...

Grande Irmão e mui amado Paulo.
Aqui tudo vai bem (com lutas e vitórias). E aí?
Muito legal esse texto.
Olha que o evangelho da graça (eletiva) vai te pegar hein, rsrs, muitas visitas ao tempora...
O texto é muito interessante.
Só gostaria de saber se vc ainda crê que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus, e se textos como dilúvio, Sodoma e Gomorra, destruição dos Cananitas ordenada por Deus, Juízos apocalípticos, Cristo como aquele que pisa o lagar do vinho e do furor do Deus Todo-Poderoso são inspirados e verdadeiros ou são inserções ou leituras medievais?
A paz mui amigo.
Tales

Rubinho Osório disse...

Obrigado, Paulo, por sua visita!
Emocionante e animadora a narrativa da sua história. Imagine que eu, filho de pastor presbiteriano, passei por muito do que vc descreve.
Gostei do blogue, voltarei, sem dúvida.
Abraços

Roger disse...

Oi Silvano,

gostei de seu pitaco lá no Tempora. Postei minha análise do tema Contigência X Plano de Deus lá no Teologia Livre.

Depois quero voltar ao seu Blog que já conhecido meu.

Abrçs,

Roger

Juber Donizete Gonçalves disse...

Prezado Paulo Silvano,

Bonito testemunho de fé, obrigado por compartilhá-lo conosco. Nunca esqueci quando li o livro "Como nascer de Novo" de Billy Graham. Lá ele diz que o novo nascimento é para todos, seja a mulher pecadora, Zaqueu o publicano, Saulo de Tarso ou o teólogo Nicodemos. Achei interessante, o falar a nova língua; - a língua do amor de Deus.

Abraço.

Daladier Lima disse...

Parabéns por sua exposição franca. Tem gente com medo de se desnudar, ou melhor, desnudar a alma. Que o Senhor continue te abençoando, em tudo!

luiz cledio monteiro disse...

paabens por se deixar converter para ligua do amor. É de Deus!

ps - vou acompanhar seu blog.
abraço